Cem anos de qualidade premiada

Há cem anos, antes da preocupação com a qualidade estar na pauta da empresas,
a Casa da Bóia já conquistava prêmios internacionais, representando o Brasil
na feira mundial de Turim, Itália, em 1911.

Se a virada do Século XXI foi marcada pela explosão da tecnologia digital, há exatos cem anos o mundo vivia uma outra revolução tecnológica.

Em todos os aspectos a humanidade se deparava com mudanças: novos meios de produção mecanizados, urbanização, a energia elétrica e o motor a combustão substituindo a máquina a vapor, a era das invenções, o cinema, os movimentos sociais que levariam a Europa à guerra, mudanças geopolíticas…

Em uma época em que inexistiam as facilidades da internet, propagar os feitos tecnológicos dos países não era tarefa tão simples como alimentar um website. As feiras mundiais eram então a oportunidade de mostrar o que de melhor uma nação estava fazendo em termos de evolução tecnológica.

Realizada entre abril e outubro de 1911 na cidade de Turim, Itália, a “Esposizione Internazionale dell’Industria e del Lavoro”, pode ser considerada a primeira grande exposição mundial focada em tecnologias, já que, até então, as artes eram o grande foco das mostras.

A exposição reuniu mais de 30 países em pavilhões especialmente construidos para abrigar a produção tecnológica de cada nação e o Brasil ocupou uma área de 8.000 m2 em um pavilhão construído no Parque Valentino, às margens do rio Po.

Levando para a exposição o que de melhor se produzia no país, a missão brasileira, contava com a participação de uma empresa pioneira que ainda hoje se encontra em plena atividade.

“Esta história começou a ser resgatada a partir de um diploma de medalha de ouro que encontramos em nosso acervo”, explica Mário Roberto Rizkallah, diretor da Casa da Bóia, empresa fundada em 1898, em São Paulo, pelo Imigrante sírio Rizkallah Jorge Tahan.

Neto do fundador da empresa, Mário Rizkallah explica a dificuldade de recompor a história da participação da Casa da Bóia na exposição.

“Eu sabia que a Casa da Bóia, na época chamada de Rizkallah Jorge e Cia, havia participado desta exposição em Turim porque encontrei nos documentos antigos, um diploma da medalha de ouro, expedido pelo júri da exposição, para as peças que a indústria produzia aqui em São Paulo.

Como, entretanto, naquele início de Séc. XX, as coisas não eram tão documentadas como hoje, não tinha muitas informações sobre o assunto. Foi recentemente, durante uma viagem à Turim que comecei a pesquisar melhor sobre a exposição”, comenta Mário Rizkallah.

A história da participação do Brasil na feira não tem farta documentação. Aliás, uma característica das feiras mundiais à época. Elas se destinavam a promover as nações durante sua realização. Ao final, tudo era desmontado e remetido de volta à sua origem, sem uma documentação sistemática.

“Como a Casa da Bóia tem uma grande preocupação com a preservação de sua memória, tenho na empresa o diploma original de sua participação na feira. Além disso, mantenho também parte do mostruário de peças que foi enviado para Turim, que rendeu este prêmio do júri da exposição”, relata Mário Rizkallah.

Antes mesmo deste reconhecimento internacional, a Casa da Bóia já havia conquistado um prêmio na Exposição Nacional de 1908, realizada no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da abertura dos portos do Brasil ao comércio internacional.

“Um fato que me chama muito a atenção é que bem antes do fator qualidade ser uma preocupação das empresas, meu avô, Rizkallah Jorge, não só tinha essa premissa como fundamental para a sua empresa, como fazia questão de participar destas mostras para buscar o reconhecimento internacional de uma indústria pioneira no Brasil”.

Memória preservada

Rizkallah Jorge foi um imigrante sírio que chegou ao Brasil em 1895, empregando-se como faxineiro em uma pequena fundição. Em apenas três anos ele comprou a empresa, fundando a Rizkallah Jorge e Cia e a transformou na primeira fundição de cobre brasileira.

O nome Casa da Bóia veio do reconhecimento popular dos produtos que fabricava, como material hidráulico e bóias para caixas d’água, que estava tendo grande demanda no início do Séc. XX, com a melhoria das condições sanitárias das cidades brasileiras.

No ano em que completou 100 anos, 1998, a Casa da Bóia constituiu um museu em sua sede, dentro das salas que um dia foram os cômodos da residência de seu fundador. Foi criado, naquele ano, o museu da Casa da Bóia.

Para sua instalação, ao realizar a reforma destinada ao museu, o neto do fundador, Mário Rizkallah, se deparou com indícios da pintura original do imóvel. Uma empresa especializada foi contratada para o trabalho de restauração que recuperou a rica e trabalhada pintura original do cômodo.

Quando a empresa completou 105 anos, uma nova sala foi devidamente restaurada para receber as novas peças e documentos e, em 2009, nova restauração foi realizada, desta vez recompondo a pintura e os desenhos originais do salão de vendas.

Neste mês de maio, quando completa seus 113 anos, a Casa da Bóia concluiu nova restauração de sua fachada, que ostenta exatamente as mesmas características de quando foi construída.

Para comemorar seu aniversário e os 100 anos da participação na Feira Mundial da Itália, a Casa da Bóia abre seu museu para visitação pública mediante agendamento.

Além da atração arquitetônica que o próprio imóvel representa, o Museu da Casa da Bóia conta não só a história da empresa como também a do comércio paulista.

Nele é possível observar livros contábeis, contratos, faturas de venda, letras de câmbio, canhotos de talões de cheque, plantas do imóvel, fotografias, peças fabricadas, ferramentas antigas e até um filme, originalmente produzido para a comemoração dos 30 anos da empresa, em 1928.

Serviço

Localizada no número 123 da rua Florêncio de Abreu, próxima à estação São Bento do Metrô,
a Casa da Bóia mantém um museu com peças fabricadas no início do século XX,
contratos, objetos antigos e documentos que contam um pouco de sua história e da evolução do comércio no último século.

Um vídeo feito com imagens da empresa em 1928 faz parte do acervo,
que é aberto ao público mediante agendamento prévio.

A visita é gratuita e pode ser agendada pelo telefone 11 3228-6255