20 de maio 123 anos da Casa da Boia

Rua Florêncio de Abreu, 123. Há exatos 123 anos Rizkallah Jorge Tahan fundava neste endereço, a empresa com a qual provavelmente sonhara, ao deixar a Síria, três anos antes, para tentar a sorte na América.

Guardadas as devidas proporções a São Paulo de 1898, conceitualmente, até que não diferia muito da São Paulo de 2021.

Uma cidade obviamente muito menor, mas, tal como hoje,  igualmente em expansão frenética, com oportunidades e desigualdades, que viria a se tornar a metrópole com o maior ritmo de expansão da nação já nos anos seguintes.

Foi aqui, no sobrado hoje icônico, nº 123 da rua Florêncio de Abreu, que o patriarca Rizkallah Jorge iniciou um negócio que transcendeu a geração de seus filhos, Jorge, Nagib e Salim e ainda segue pleno, nas mãos de seu neto, Mario Rizkallah.

123 anos de acertos, de erros, de tentativas, de adaptações, de momentos difíceis, de progresso e, sempre, e ainda bem que assim é, de mudanças.

Mudou a cidade, mudaram as técnicas de produção, mudou nosso cliente, as suas necessidades, mudou o próprio negócio, mudaram nossas mentes, mudaram as gestões.

Algo, mais do que nosso endereço, não mudou. Os princípios trazidos há 123 anos de honestidade e de respeito permanecem inalterados.

Uma empresa não constrói 123 anos de história sozinha. Depende de seus fornecedores, de seus funcionários, prestadores de serviço e, obviamente, depende dos seus clientes, essencialmente a nossa razão de ser.

Assim como quando a Casa da Boia completava seus 20 anos de existência, no ano de 1918, das sacadas de nosso sobrado, observamos aturdidos a pandemia da Gripe Espanhola, assim hoje o fazemos, assustados com a tristeza da perda de tantas vidas para a pandemia do Coronavírus.

Mas assim é o curso do rio da história. Corre, independente de nós.

Se não temos controle sobre o seu curso, podemos, ao menos, observá-lo e desta observação, colhermos conhecimento.

Difundir o conhecimento histórico, social, arquitetônico, cultural, do ofício é algo que incorporamos como uma trabalhosa, mas gratificante função, de nossa empresa.

Algo que vem cada vez mais se solidificando, desde que, há 23 anos, começamos a organizar um acervo de documentos, fotos e objetos. Ainda de um jeito amador, começamos a dedicar um olhar mais atento à nossa história, ainda sem saber a importância que cada nova descoberta traria para nossa empresa e para a memória da cidade.

Há alguns anos, uma confluência de ações fez com que este acervo começasse a ter um tratamento arquivístico correto, com a atuação de historiadores que lançaram um novo olhar sobre os documentos antes dispersos.

Ao mesmo tempo, a entrada da diretora Adriana Rizkallah trouxe um novo vigor às atividades de manutenção, preservação arquitetônica de nosso sobrado e difusão de nossas atividades culturais, um movimento que batizamos de Casa da Boia Cultural.

Ao chegarmos aos 123 anos em um momento em que a responsabilidade nos impõe a interrupção de nossas atividades culturais presenciais, temos a sorte de poder contar nossa história no universo virtual de nossas redes sociais e nossos canais de comunicação, tudo embasado pela análise dos documentos de nosso acervo.

123 anos de história nos mostram que tudo passa. E o momento difícil que vivemos hoje, igualmente passará.

Quando isso acontecer, temos um encontro, na Rua Florêncio de Abreu, 123. Nosso sobrado estará sempre de portas abertas à cidade que nos acolheu há exatos 123 anos.